• Sustentabilidade Econômica e/ou Ambiental?
  • Fábio Crocco*

    Sustentabilidade de quem? Da natureza ou do nosso sistema sócio-econômico? Hoje se tornou mais fácil pensar na degradação da natureza, na destruição da biodiversidade, no fim da Humanidade, do que simplesmente pensar em modificarmos nosso modo de vida, de nos relacionarmos uns com os outros e com a natureza. Transformar a maneira de nos organizar em sociedade e de gerir a economia parece um sacrilégio. O mundo pode até acabar em poluição, em guerra e em desigualdade, mas é um absurdo pensar em tocar no regime da propriedade privada.

    Muitos políticos, embasados em pesquisas e estudos sócio-ambientais, afirmam que é possível crescer economicamente sem degradar. Este não seria o lema da sustentabilidade? Novas formas de manejo da agricultura, da pecuária, da produção fabril e administrativa, a melhor utilização de energias, o desenvolvimento de novas tecnologias etc., tudo isso sem alterar a lógica do sistema, sem interferir nos níveis de consumo. Tudo isso parece tão lindo! Mas o problema é que não funciona de maneira simples.

    Tais argumentos servem de “marketing verde”, para que os negócios e o consumo continuem crescendo, mais ainda, tornou-se um novo mercado lucrativo para a expansão capitalista. Salve os bons negócios “verdes”! Sem que as necessidades supérfluas sejam questionadas outras novas são criadas, necessidades que ao serem satisfeitas por meio do consumo têm a capacidade de serem isentas de sentimento de culpa. Consuma alimentos orgânicos! Compre um carro e plante uma árvore! Esta empresa tem selo verde! Tais discursos imperativos são a alma do negócio, que para existir necessita de uma eticidade para satisfazer os anseios materiais e psicológicos dos consumidores.

    Sim! É importante realizar ações localizadas, intervenções micro e pontuais, tentativas de conservação, ou mesmo mitigação dos impactos realizados, pois toda forma de transformação depende destas pequenas atuações. Tais ações são fundamenteis e vem crescendo cada vez mais junto às organizações não governamentais locais, às distintas ações da sociedade civil e diversas entidades de proteção ambiental internacionais. Sendo assim, percebe-se um envolvimento local e global cada vez maior. Isso é fundamental, mas não é o bastante, é preciso também a vontade do Estado na construção e aplicação de leis efetivas em âmbito nacional para a proteção do meio ambiente e a construção de um diálogo internacional que tenha a capacidade de promover ações efetivas e cobrar daqueles que negligenciam tais ações. Com isso, voltamos à discussão da economia política. Pois, ao deixar de questionar nosso modo de produção e consumo, o nosso sistema sócio-econômico, perdemos a essência causadora de todos os problemas ambientais e sociais: o sistema de criação e satisfação de necessidades, do qual este sistema tanto depende.

     

    *Fabio Crocco é cientista social, mestre em filosofia e doutorando em ciências sociais.

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