• Seca em rios é oportunidade de limpeza do lixo exposto
  • Redução de cursos d’água, como o Tietê, deixou margens repletas de lixo. Especialistas dizem que responsabilidade da limpeza é de prefeituras.

    Por Eduardo Carvalho do G1, em São Paulo

    A seca na Região Sudeste reduziu a vazão de rios importantes, deixando vários trechos com acúmulo de lixo nas margens. Especialistas ouvidos pelo G1 apontam que este é um bom momento para que o poder público limpe as áreas afetadas, antes da temporada de chuvas.

    Desde o início do ano, rios como o Tietê, que corta parte da Grande São Paulo, e o Piracicaba, no interior paulista, diminuíram seus níveis. Reservatórios também foram afetados. O Sistema Cantareira, que abastece a Grande São Paulo, por exemplo, caiu muito.

    Na região de Santana do Parnaíba, a 30 km de São Paulo, a seca deixou exposta as pedras, normalmente escondidas pelas águas turvas, e evidenciou toneladas de lixo: uma mistura de sofás, sacolas plásticas e muitas garrafas PET. Na cheia, esse lixo navega pelas águas poluídas e “passeia” também pelos municípios vizinhos, como Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva e Salto. Com a seca, uma massa de detritos ficou estacionada na área.

    Em Salto, a prefeitura municipal montou uma operação para remover o que ficou acumulado em dois trechos, um deles na Ponte Pênsil, cartão postal da cidade. Operários fizeram rapel para alcançar os materiais. Já foram recolhidos quase três toneladas de lixo contaminado, que será enviado para aterro sanitário.

    A responsabilidade de recolher o material em rios é das prefeituras, segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, e o Departamento de Águas e Energia Elétrica, o DAEE, gestor dos recursos hídricos no estado.

    Mas, segundo a pesquisadora Monica Porto, professora de engenharia ambiental da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), o acúmulo de lixo nos rios, tanto na seca, quanto nos períodos de cheia, é apenas parte de um problema maior, que vai desde a deficiência de prefeituras para tratar os resíduos sólidos à falta de conscientização da população, que precisa ser atingida por campanhas de esclarecimento.

    Pneu é visto no leito seco do Rio Tietê. (Victor Moriyama/G1)

    Resíduos sem destinação
    Estimativa da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) aponta que apenas 60% do lixo gerado no Brasil em 2014 terá destino correto. No país existem quase 3 mil lixões e apenas 1,4% das 189 mil toneladas de lixo geradas por dia são recicladas.

    “É responsabilidade das prefeituras evitar que os materiais cheguem aos rios. Não deveria precisar tirar os resíduos porque eles não deveriam nem ter ido para lá. No fim, as prefeituras acabam exportando esses problemas para órgãos estaduais”, explica a professora.

    Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) analisaram a composição do lixo coletado nas tubulações do sistema de drenagem de Sorocaba, cidade do interior de São Paulo com 630 mil habitantes, e constatou que 17% do materiais foram lançados pelo homem, como vidro, embalagens metálicas e plástico.

    Segundo o estudo, é alarmante a quantidade de lixo, que pode entupir canaletas e bueiros, e provocar problemas para a população, como enchentes.

    “Há uma quantidade que efetivamente vai para os rios que não sabemos. As prefeituras não têm consciência de limpar [o lixo dos rios], eles não pensam muito nisso. Geralmente fazem campanha de desassoreamento, para diminuir riscos de enchente, mas agora podiam aproveitar [a época de seca] para fazer a limpeza”, explica Sandro Mancini, professor da Unesp e especialista em reciclagem de resíduos sólidos.

    Mutirões ajudam, mas são insuficientes
    Iniciativas de voluntários para limpar os cursos d’água, como a realizada por moradores de Piracicaba em fevereiro deste ano, que marcaram uma faxina geral no Rio Piracicaba pela internet, são louváveis, mas é preciso muito mais para superar o problema, de acordo com Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da fundação SOS Mata Atlântica.

    Ela afirma que uma das soluções para o problema seria o reforço da coleta seletiva nas cidades, já que as cooperativas, onde elas existem, não dão conta de separar todo o lixo. “Precisamos aproveitar essa seca terrível para fazer um alerta, um chamamento das pessoas, pois o lixo só está aí por nossa culpa, do cidadão”.

    A ONG, que organiza todos os anos campanhas de conscientização e mutirões de limpeza de rios e praias, avaliou este ano a qualidade de 96 rios, córregos e lagos de 7 estados das regiões Sul e Sudeste. A análise constatou que 40% foram classificados como ruins e péssimos, sendo as principais fontes de poluição e contaminação a falta de tratamento de esgoto doméstico, produtos químicos lançados nas redes públicas e lixo de diversos tipos.

    Na região de Santana do Parnaíba, a reportagem do G1 encontrou a recicladora Cirlene Oliveira, de 44 anos, recolhendo lixo na margem do Tietê.  Ela vende o material para manter o sustento da sua família. Segundo Cirlene, o rio cheio facilita seu trabalho, que é navegar com um barco e recolher os itens recicláveis. Porém, mesmo com a dificuldade atual, ela disse que não acha certo todo esse lixo na água.

    Cirlene trabalha coletando material reciclável no Tietê e prefere quando o rio está cheio. Victor Moriyama-G1

    Fonte: G1

    Segunda-feira, 28 de julho de 2014.

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