• Rios de Preservação Permanente
  • Com participação de especialistas da UFMG, movimento defende criação de rios de preservação permanente para favorecer reprodução de peixes.

    O aumento do consumo de peixes e os crescentes obstáculos à sua reprodução têm fortalecido, entre especialistas, a ideia da criação de rios de preservação permanente que funcionam como reservas biológicas.

    “É importante que alguns rios sejam inteiramente preservados, assim como ocorre com algumas matas. Mas não se pode pensar o rio apenas como a linha onde a água passa – a reserva deve necessariamente incluir suas lagoas marginais, várzeas e seus afluentes principais”, explica o professor Evanguedes Kalapothakis, do Departamento de Biologia Geral do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG.

    Kalapothakis: preservação deve incluir lagoas marginais, várzeas e afluentes

    “Quando se começa a chegar próximo a limites perigosos – seja para o meio ambiente, seja para a economia – ideias boas voltam a ser discutidas com maior intensidade”, comenta.

    Ao comparar o uso do rio como reserva biológica e como ambiente para produção de energia elétrica, Pompeu diz que a geração energética perdida com o impedimento de implantação de algumas hidrelétricas corresponderia a menos de 10% do potencial da bacia. “Por outro lado, representaria a possibilidade de preservação, em longo prazo, da maioria das espécies de peixes da bacia do Rio Doce”, enfatiza o professor da Ufla.

    Em entrevista ao Portal UFMG, o professor Evanguedes Kalapothakis explica a importância da migração para a reprodução desse grupo de peixes e enfatiza que a garantia de sobrevivência dessas espécies está relacionada a aspectos que afetam toda a sociedade, de forma indireta até mesmo com o abastecimento de água para centros urbanos.

    O que significa, na prática, a definição de um rio como ambiente de preservação permanente?
    Significa não apenas impedir a instalação de obstáculos artificiais, como barragens e represas que interrompem o fluxo natural dos rios e podem impedir a migração dos peixes. É muito mais do que isso. É necessário, por exemplo, preservar inteiramente as chamadas lagoas marginais, que têm papel importante porque “recrutam” ovos, pós-larvas e alevinos que descem o rio após o período de reprodução dessas espécies e que seriam facilmente usados como alimento por outros animais. Ao entrarem em uma lagoa, na época de cheia, eles têm mais oportunidades de sobreviver, e descem o rio depois que estão maiores.

    Qual a distância que os peixes migradores costumam percorrer e por que fazem esse trajeto? O que define o local onde se reproduzem?
    A distância depende do rio e da espécie. A curimba, por exemplo, pode se deslocar por quilômetros até a região em que se reproduz. Os peixes dessa espécie sobem os rios para se reproduzirem – a fêmea solta os ovos e ocorre a fecundação com os espermatozoides que o macho libera na água. A reprodução ocorre quando os peixes atingem a maturação sexual, sendo importantíssimo o deslocamento “rio acima” conhecido como piracema. Nesse trajeto, vários fatores são importantes para que os peixes atinjam o objetivo final, ou seja, a reprodução e sobrevivência da prole. Outro aspecto é a seleção natural, pois são os mais fortes que conseguem chegar ao final, enquanto alguns morrem antes. Com relação ao percurso, estudos sugerem que os peixes podem voltar para o local onde nasceram – não se sabe muito bem como isso ocorre e existem pesquisadores trabalhando neste assunto.

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    Curimba ou Curimbatá

    A construção de barragens pode levar à extinção de algumas espécies?
    Barrar a migração desses animais pode dificultar a reprodução. Pode não impedir completamente, depende da região, depende se o peixe terá uma rota alternativa, pois pode haver rios menores nos quais consigam migrar, atingir a maturidade sexual e finalizar o processo reprodutivo. É possível até que alguns já façam isso antes da construção de barragens – aspectos como esses estão sendo estudados. É importante que fique claro que as hidrelétricas, boas ou não para a natureza, são necessárias. A questão não é acabar com as hidrelétricas, mas encontrar caminhos e soluções que possam contemplar o lado ambiental, econômico e social.

    O que muda no trato com um rio definido como reserva biológica?
    Ele precisa ser alvo de um trabalho global e intenso, incluindo políticas públicas, tem que ser protegido, ter tratamento de esgoto etc. Campanhas educativas com foco nos usuários devem ser constantes. A preservação direcionada a um rio tem reflexo muito grande para toda a comunidade, o que pode ser observado na crise de abastecimento de água. Por que São Paulo não utiliza a água do rio Tietê? Por que Belo Horizonte não utiliza a água do rio Arrudas? Porque poluímos o que está perto e precisamos pegar água cada vez mais longe. Até quando as fontes que estão longe vão resistir à poluição? A preservação de um rio é sentida pela população no momento em que começa a faltar água na torneira. Toda sociedade ganha com a criação de rios de preservação permanente.

    Veja a entrevista na íntegra aqui

    Terça-feira, 27 de maio de 2014.

    Texto: Portal UFMG

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