• Do Ecodesenvolvimento ao Desenvolvimento Sustentável: enorme diferença!
  • Fábio Crocco*

       As preocupações com a proteção do meio ambiente são historicamente recentes em comparação com o período de agressão. O antropocentrismo moderno, que foi o desencadeador da ciência clássica e dos processos teóricos e práticos da dominação da natureza, já completou mais de quatro séculos, já as mobilizações para a proteção ambiental mal completaram quatro décadas com diversas disputas conceituais e com propostas e ações frágeis. Em junho de 1972 em Estocolmo foi realizada a primeira grande conferência mundial para discutir a relação do homem com o meio ambiente, posteriormente seguida de outros encontros internacionais preocupados em discutir modelos de desenvolvimento.

     Conferência de Estocolmo 1972

       Primeiramente, ecodesenvolvimento e depois desenvolvimento sustentável foram as propostas debatidas nas décadas de 70 e 80. O primeiro apontou o consumo desenfreado do sistema capitalista como o grande causador dos problemas ambientais e somado às várias outras propostas, apoiava uma intervenção na economia para diminuir tal impacto. Diferentemente, a proposta do desenvolvimento sustentável, modifica a discussão para uma esfera bem distante daquela intervenção política e econômica. O problema torna-se energético, técnico e tecnológico, desloca-se a questão para a pequena eficiência energética de nossos processos produtivos, cuja saída é dada pelo desenvolvimento de novas tecnologias e matrizes energéticas para que os processos possam produzir mais com menos.

       Enquanto o ecodesenvolvimento propunha uma planificação da economia controlando o excesso desnecessário de gasto de energia, produção e consumo de bens, o desenvolvimento sustentável afirma que é possível crescer economicamente, aumentar a produção e o consumo sem degradar o meio ambiente. E mais, afirmou que um dos problemas ambientais mais graves é gerado pela pobreza, pela falta e não o excesso de consumo. Assim, a “sugestão” vinda dos “países desenvolvidos” era que os “países pobres” e “em desenvolvimento” se aliassem às políticas econômicas globais, mimetizando os exemplos políticos e econômicos de sucesso, para superar o problema da pobreza. Percebe-se que a “recomendação” foi o aliamento político-ideológico, por meio do qual os países desenvolvidos guiariam o processo de desenvolvimento dos demais países pelos seus investimentos e direcionamentos. Utilizando-se do discurso da superação da pobreza os capitais acumulados nos países desenvolvidos são colocados em circulação em locais propícios para sua expansão.

       A pobreza é sim um problema social e ambiental muito grave, mas ela mesma foi gerada pela forma desigual de distribuição da riqueza. A acumulação do capital, do qual o sistema capitalista historicamente dependeu para alcançar sua estrutura atual, foi possibilitada pela dominação brutal de populações inteiras e exploração da natureza e do trabalho alheio. A pobreza, a desigualdade e a acumulação de capitais são inerentes a este sistema que depende da exploração do trabalho e dos recursos ambientais. Desta forma, torna-se importante refletir se a desigualdade e a pobreza serão realmente diminuídas com a expansão do capital e com a aceleração da economia, ou, pelo contrário, se tais problemas podem ser agravados, prejudicando, mais ainda, o meio ambiente.

    Eco(desenvolvimento) sustentável

       O desenvolvimento sustentável foi a proposta vencedora e com ela implementou-se um plano de ação que não visa desacelerar a economia ou diminuir o consumo, mas pelo contrário, objetiva acelerar a produção e o consumo numa outra direção. Guiado pelo desenvolvimento sustentável a economia global ganha novos nichos de mercado e novas possibilidades de expansão, assim como novos modelos de negócio e uma enorme reestruturação produtiva. Desenvolvimento sustentável aparentemente significa proteção ambiental, mas em sua essência representa reestruturação e fortalecimento das relações capitalistas e expansão do capital. Por fim, cabe perguntarmos, quais são os interesses mais imediatos e poderosos, os de salvaguardar a economia em momentos de crise ou os ambientais?


     

    *Fabio Crocco é cientista social, mestre em filosofia e doutorando em ciências sociais.

    
    

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