• Alerta ambiental sobre os cemitérios
  • Geólogo investiga a situação de mil cemitérios espalhados pelo Brasil e conclui que 75% apresentam problemas sanitários, alguns graves.

    Este assunto é pouco abordado em pesquisas, ou mesmo na mídia, talvez por certo tabu em se falar sobre morte ou como lidar com a memória daqueles que morreram. Mesmo assim, é um tema de extrema pertinência, porque os cemitérios são fontes de poluição, principalmente do lençol freático. Assustadora, a notícia de que entes queridos mortos podem pôr em risco a saúde dos seres vivos é vista com reprovação pela sociedade. Uma pesquisa feita pelo geólogo Lezíro Marques Silva, da Universidade São Judas, afirma que, em mil cemitérios analisados no país, 75% apresentaram problemas sanitários e ambientais, tais como solo inadequado, vazamento de necrochorume no lençol freático ou cemitério construído perto de residências. A pesquisa foi concluída no ano passado.

    Você sabe o que é necrochorume?

    “Se o necrochorume escapa do túmulo, ele pode entrar em contato com o lençol freático, criando uma mancha de poluição que atinge quilômetros de distância a ponto de contaminar poços e rios”, explica Lezíro Marques Silva. Segundo o especialista, a decomposição do corpo pode durar de alguns meses a vários anos, dependendo da ação ambiental. Em clima tropical, o cadáver demora aproximadamente três anos para ser decomposto. Em regiões temperadas, o processo pode durar até dez anos. Ainda de acordo  com Silva, a contaminação do solo acontece principalmente em cemitérios públicos, onde as condições hidrogeológicas são ignoradas.

    Um caso clássico e que demonstra claramente esta situação é o Cemitério Municipal Vila Lídia, no município de Mauá. Silva conta que o local possui túmulos coletivos que chegam a sete metros de profundidade no solo, com várias gavetas empilhadas. Em alguns casos, os cadáveres chegam a ser sepultados dentro do lençol freático. As gavetas mais inferiores do túmulo estão dentro d’água. “Em 1987 vi uma exumação em que o cadáver não se decompôs por causa da umidade, chama-se saponificação. Eu vi sepultamentos em que os coveiros tiravam água do fundo desse túmulo coletivo com balde”, comenta Silva.

    A febre tifoide, a febre paratifoide e a hepatite (Hepatite A) infecciosa são exemplos de doenças causadas pela contaminação por necrochorume.

    A diferença entre o aterro sanitário e o cemitério é que este último se mantém funcionando indefinidamente, o que o torna uma fonte de contaminação contínua. “Pela legislação brasileira, depois de cinco a sete anos, quando ficam só ossos, eles são removidos e colocado outro corpo no local”, afirma Walter Malagutti, do Departamento de Geologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que também estuda o assunto.

    O coveiro ou sepultador que trabalha na organização dos cemitérios, limpeza das covas, etc, deve realizar tais atividades e garantir sua segurança e saúde e para isso é necessário que ele seja consciente dos riscos que a atividade de coveiro oferece. Mas muitos deles não utilizam EPI (equipamento de proteção individual), como luvas e máscaras. “De vez em quando um deles desmaiava e tinha que ser retirado às pressas. Sou testemunha ocular disso. Eu vi, e eu vivi esse problema”, comenta o geólogo Silva.

    A principal crítica do pesquisador é a má escolha dos locais para instalação de cemitérios: “O que sobra são terrenos do ponto de vista geológico inadequados, como lençol freático raso, área de várzea e morro”, como mostra a figura abaixo (clique na imagem para ampliar).

    Segundo o geólogo, para resolver o problema é necessária uma legislação mais específica que oriente a construção de lajes de contenção e obrigue o uso de substâncias que reduzam o nível de contaminação. Uma delas foi desenvolvida pelo próprio Lezíro, durante sua pesquisa. Trata-se de uma espécie de colchão que contém um líquido que neutraliza as substâncias tóxicas e que deve ser colocado dentro da sepultura. “Tem solução, mas pouco é feito”, diz Silva. Independente da polêmica, o fato é que a possibilidade de contaminação do lençol freático preocupa o presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas, Everton de Oliveira. “Água subterrânea representa 97% da água disponível para consumo no nosso planeta.

    A legislação atual que trata do licenciamento ambiental dos cemitérios é a Resolução 335 do CONAMA, de 03 de abril de 2003.

    Os pesquisadores afirmam que a cremação é a solução mais adequada, embora ainda rara no país. Por outro lado, há estudos chamando a atenção para a pegada ecológica da cremação devido a emissão (significativa) de poluentes, como o cádmio, chumbo e mercúrio, além de gases do efeito estufa. Há um cálculo que estima a energia gasta para cremar um corpo humano como equivalente a que um carro típico gasta para percorrer 7,7 mil quilômetros.

    Fonte: O Eco

    Segunda-feira, 5 de novembro de 2012.

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