• Quem se aflige com as águas do Cerrado?
  • Por Washington Novaes

    O Estado de S. Paulo

    13/09/2013

    Durante a Semana da Água, há poucos dias, a ONU lembrou que 2,4 bilhões de pessoas no mundo vivem sem saneamento. E cerca de 80% da “água residual” de assentamentos humanos ou fontes industriais é despejada sem tratamento e “contamina oceanos, lagos e rios”. Com o abastecimento e o saneamento inadequados, ocorre uma “perda econômica de US$ 260 bilhões em gastos com saúde e menor produtividade no trabalho”. Nesses mesmos dias, os jornais brasileiros informavam que uma das bacias mais importantes do Brasil – a do Rio Doce, em Minas Gerais e no Espírito Santo – sofre os impactos da degradação ambiental; sua vazão tende a tornar-se insuficiente para atender às atividades econômicas na região (Valor, 3/9), incluídas as de mineradoras e até hidrelétricas. No médio Rio Doce, a pecuária também está afetada, com pastagens que já não podem receber mais de meia cabeça de gado por hectare (já receberam uma média de quatro cabeças por hectare).

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    Certamente uma das razões da perda de vazão do rio estará no desmatamento de áreas do Cerrado e na perda da água acumulada no subsolo desse bioma. O desmatamento já chegou, em todo o Cerrado, a perto de 50% da área total. A compactação do solo resultante, assim como problemas na área do clima, levaram técnicos do Ministério do Meio Ambiente a estimar, há quase uma década, que o volume de água no subsolo – que antes gerava o fluxo de 14% das águas brasileiras que correm para as três grandes bacias (Amazônica, do São Francisco e do Paraná) e era suficiente para sete anos – caíra para três anos. E o desmatamento prossegue, inclusive com a política de ampliação da área de plantio da cana-de-açúcar.

    Não é de estranhar, assim, o que acontece na bacia do Rio Doce, bem como na do São Francisco – retratadas com realismo pelo jornalista Marco Antônio T. Coelho em seus livros (Editoras Paz e Terra e Autêntica), comentados neste espaço -, onde a visão apenas economicista tem comandado a ocupação do território e causado a redução do fluxo dos afluentes também do São Francisco. Ainda há poucos dias o governo federal decidiu ligar as usinas termoelétricas nordestinas movidas pela queima de carvão, diesel e gás (as mais poluentes e caras), para “evitar a possibilidade de um apagão”. E, pode-se acrescentar, por causa do baixo nível de acumulação de água nos reservatórios das hidrelétricas, o menor nos últimos dez anos. Sobradinho e Três Marias, por exemplo, estão com apenas 36% de sua capacidade de armazenamento (O Globo, 4/9).

    E tudo se pode agravar mais com o bilionário e ilógico projeto de transposição de águas do grande rio, que já custa mais que o dobro do inicialmente anunciado e ainda pode ir além – embora esteja longe da conclusão. Não bastasse, no projeto das cisternas de placa – eficientes para abastecer casas e pequenos povoados onde vivem milhões de pessoas e aonde não chegará a água a ser transposta -, elas estão sendo substituídas por cisternas de plástico. Estas, menos adequadas, custam muito mais caro. E uma licitação para instalar 187,5 mil delas em seis Estados, ao custo de quase R$ 600 milhões, está suspensa e sob investigação do Tribunal de Contas da União, por suspeita de favorecimento de empresas. O cálculo é de que serão necessárias mais 750 mil cisternas (remabrasil, 1.º/9).

    Informações como essas dão peso a advertências do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, de que se pode agravar a escassez de água no mundo, principalmente se não aumentarem os esforços para a conservação da biodiversidade, pois esta depende da água e vice-versa (sem falar em clima e energia). E o Cerrado brasileiro comprova isso. O mais recente relatório mundial sobre a água, editado pela ONU, considera necessário um fundo de até US$ 19,2 bilhões para financiar projetos nessa área.

    Não precisamos ir longe para confirmar tudo isso. Ainda há poucas semanas, por exemplo, o governo paulista assinou (Estado, 22/8) contrato de parceria público-privada para “construir o maior sistema de abastecimento desde o Alto Tietê, entregue em 1993″, destinado a atender ao oeste e ao sudoeste da Grande São Paulo. Com a implantação de áreas para captação, armazenamento e tratamento de água, o sistema, que trará água captada a 83 quilômetros de distância, atenderá a 1,5 milhão de pessoas – uma vez que está esgotada a possibilidade de ampliação em fontes mais próximas e em bacias nas quais já há conflitos pelo uso. Quanto custará essa água (4,7 mil litros por segundo, mais 7% em relação ao potencial efetivo de hoje, de 73 mil litros) trazida da região de Ibiúna, principalmente tendo de superar um desnível de 300 metros? Quanto em energia para elevá-la? O investimento previsto será de R$ 2,21 bilhões. E quanto custará mais água no futuro, se tiver de ser trazida do Vale do Ribeira, muito mais longe e tendo de superar desnível bem maior? A previsão é de que o consumo aumente 40% (mais 30 mil litros por segundo) até 2035.
    TI03 (3)Ainda será preciso avaliar com cuidado o caminho da privatização nesse setor, que foi alvo de muitas críticas no recente Fórum Mundial de Meio Ambiente, promovido em Foz do Iguaçu pelo Lide – Grupo de Líderes Empresariais (www.cdn.com.br). Uma das vozes mais contundentes foi a do norte-americano Robert F. Kennedy Jr. – filho do ex-senador Robert F. Kennedy e sobrinho do presidente John F. Kennedy -, que citou exemplos de privatizações problemáticas, como as de Cochabamba, na Bolívia, e a privatização de todo o abastecimento de água no Chile.

    Não é preciso desmatar nenhum hectare mais no Cerrado. Em Goiás, o governo estadual tem reiterado que um dos caminhos é recuperar mais de 50% das pastagens naturais goianas, que estão degradadas e mal comportam uma cabeça de gado por hectare. Mas o desmatamento do Cerrado prossegue em todo o Centro-Oeste, no Tocantins, no Maranhão, no Piauí e, em nível alarmante, no oeste da Bahia. Para plantar cana e soja. E fornecer lenha a siderúrgicas – como em Minas Gerais.

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